O celibato dos sacerdotes não existia na Igreja Antiga

22/03/2018 14:04

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22 A Disciplina do clero na Antiga Igreja

            Falaremos posteriormente da segunda parte da disciplina, que propriamente se refere aos eclesiásticos. Consiste esta nos cânones, que os bispos antigamente ordenaram para si mesmos e para seus clérigos. Assim por exemplo, que nenhum eclesiástico foi inclinado a caça, nem jogos de azar, nem a tomar parte em banquetes; que não praticassem da usura, nem se dedicassem ao comércio; que não se fizessem presentes em danças lascivas; e coisas semelhantes.

            Estabeleciam ainda as penas com as quais se salvaguardava a autoridade dos cânones, para que ninguém os quebrasse impunemente. Para este fim cada bispo encarregava-se de governar os seus eclesiásticos, para que os regesse conforme os cânones, e os mantivessem no cumprimento do dever. Com este fim ordenaram-se as visitas anuais, para que se alguém era negligente em seu ofício, o admoestassem e se alguém pecava, o castigassem conforme seu delito.

            Ademais os bispos tinham a cada ano sínodos provinciais, e antigamente realizavam-se duas vezes por ano, pelos quais eram julgados, se faziam algo em desacordo no exercício do seu ofício. Porque se algum bispo era mais severo e rigoroso em relação a seus clérigos, apelava-se ao sínodo, mesmo sendo apenas um que a queixar-se. O castigo era mui severo; aquele que havia cometido o pecado era deposto de seu ofício e era privado da comunhão por certo tempo. E nunca concluíam um sínodo sem designar o lugar e a data para o próximo. Porque convocar concílio universal era atributo somente do Imperador, segundo registros antigos.

            Enquanto reinou este rigor, os eclesiásticos não exigiam do povo nada mais daquilo que eles mesmos faziam e do que davam exemplo. E ainda eram mais rigorosos com eles mesmos do que com o povo. E de fato, convém que o povo seja regido com uma disciplina mais suave e, por assim dizer, mais livre; e que os eclesiásticos apliquem a si mesmos com mais rigor as censuras.

            Decadência desta disciplina: Não há porque contar como tudo isto se desfez, já que atualmente não se pode imaginar nada mais desenfreada e dissoluta que a ordem eclesiástica; e é tal o descontrole que todo mundo clama contra isso. E para que não pareça que todo o passado está sepultado entre eles, confesso que enganam os olhos das pessoas simples com uma espécie de sombras, pois tudo isso não se parece com os antigos costumes mais do que uns gestos de um macaco quando comparados aos de um homem dirigido pela razão.

            Digno é de memória perpétua a passagem de Xenofonte, onde ele ensina que quando os persas degenerado dos costumes de seus antepassados e abandonando seu modo de viver austero, entregaram-se a dissolução e voluptuosidades, para encobrir essa ignomínia guardavam diligentemente os ritos dos antigos. Porque como no tempo de Ciro imperava a sobriedade e temperança, que não era lícito assuar-se e fazê-lo era tido por grande afronta vergonhosa, isto foi guardado pelos sucessores como coisa sagrada; pois lhes foi permitido solver os mucos e mantê-lo dentro dos hediondos humores que de sua intemperança se originavam, até que aprodecesse. Igualmente era coisa abominável segundo as regras antigas por garrafas vazias na mesa; mas era permitido beber vinho até serem retirados da mesa embriagados. Foi ordenado que não se comesse mais que somente uma vez ao dia; estes legítimos sucessores não aboliram o costume, pois de tal maneira que o banquete prosseguia desde o meio-dia até o meio da noite (logo após o entardecer). Que o exército não caminhasse durante o dia com fome, também o guardaram, contudo restringisse a uma jornada de duas horas. 1

            Sempre que os papistas se jactam de suas regras desregradas para mostrar que imitam os santos. Pois, este exemplo os acusará do ridículo de sua imitação de tal maneira, que não há pintor que o represente de forma mais viva (clara).

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1 Ciropédia, Lv. VIII, cap VIII

 

23 Tirania e imoralidade do celibato dos clérigos contrários à Palavra de  

      Deus

            Em uma coisa têm sido demasiado rigorosos, e até inexoráveis; em não permitir que os sacerdotes, se casem2. Não é necessário dizer da licença que tomam para viver luxuriosamente, e como, em seu sujo celibato têm encalhado em toda classe de lascívia. Esta proibição mostra quão perniciosas são as tradições humanas, posto que esta não somente tem privado a Igreja de pastores bons e idôneos, sendo que atrai também consigo uma infinidade de abominações, precipitando nossas almas na desesperança.

            Certamente, ao haver privado os sacerdotes do matrimônio, foi uma ímpia tirania, não somente contra a Palavra de Deus, bem como contra toda justiça.

            Em primeiro lugar, não há razão alguma que permita aos homens proibir o que o Senhor deixou a escolha de qualquer um.

            Ademais, que o Senhor ordenou expressamente em sua santa Palavra que esta liberdade não fosse nunca violada, é tão claro, que não necessita provar-se.

            Apóstolo Paulo ordena que o bispo seja marido de uma só mulher. “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar;” (I Timóreo 3:2).

“...alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados” (Tito 1:6). Pois, se pode dizer algo mais veementemente do que aquilo que o Espírito Santo afirmou: que nos últimos dias haveria ímpios que proibiriam o matrimônio; aos quais não somente os chama de sedutores como também diabos? “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, que exigem abstinência de alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ação de graças, pelos fiéis e pro quantos conhecem plenamente a verdade;” (I Timóteo 4:1-3). Entretanto tal profecia é do Espírito Santo, que quis com ela desde o princípio prevenir sua Igreja contra tais perigos, declarando que proibir o matrimônio é doutrina diabólica.

            Nossos adversários crêem haver encontrado uma boa escapatória, dizendo que a sentença do Apóstolo estende-se aos montanistas seguidores de Taciano, encratitas, e outros hereges antigos. Somente eles, dizem os romanistas, condenaram o matrimônio, nós não o condenamos; somente o proibimos aos sacerdotes, pois cremos que não é bom estarem casados. Como se esta profecia, mesmo cumprindo-se naqueles não se aplicasse também neles! Como tão pueril sutileza mereceria ser ouvida! Negam que proíbem o matrimônio, porque não o proíbem a todos. Isto é nem mais, nem menos que se um tirano pretendesse que uma lei não é iníqua, porque não atinge toda a cidade, e somente uma parte.

24. Objetam que os sacerdotes devem diferenciar-se em algo do povo. Como se o Senhor não houvesse previsto com que ornato devem os sacerdotes resplandecer! Ao falarem assim e confundido o decoro eclesiástico; posto que ao propor a idéia perfeita de um bom bispo, entre os dotes exigidos ele atreve-se a por o matrimônio “É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar;” (I Timóteo 3:2)

Bem se como eles interpretam isto; a saber, que não há de ser eleito pro bispo aquele que tiver uma segunda mulher. Concedo que esta interpretação não seja nova; pois se vê claramente pelo contexto que é falsa; porque logo prescreve como devem ser as mulheres dos bispos e diáconos “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.” (I Timóteo 3:11). Vemos, pois, como o apóstolo Paulo nomeia entre as principais virtudes de um bom bispo o matrimônio; entretanto eles dizem que é um vício intolerável entre os eclesiásticos. E o que é pior: Não contentes em vituperá-lo desta forma, vão mais adiante o chamam de sujeira e poluição da carne; que segundo as próprias palavras do papa Sirício aos bispos da Espanha que os romanistas citam em seus cânones3.

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2 Concílio de Latrão (1123), cap.III

3 Siricio, cartas, I,7; Graciano, Decreto, p. I, dist.82, cap. 3 e 4.

            Que cada um reflita de que fonte procede isto. Cristo honra tanto o matrimônio, que quer que seja uma imagem de sua sagrada união com a Igreja “As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como Cristo é o cabeça da Igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo.” (Efésios 5:22-23). Que poderia ser dito mais honroso para enaltecer a dignidade do matrimônio? Com que cara então atrevem-se a chamar imundo e sujo àquilo em que resplandece a semelhança espiritual da graça de Cristo?

25. Apesar de sua proibição ser tão manifestamente contrária a Palavra de Deus, contudo citam a santa Escritura para defender esta sua posição. Era obrigatório, dizem que os sacerdotes levíticos, sempre que lhes chegava o turno de servir no templo, se separassem das mulheres, para que tratassem dos assuntos sagrados limpos e puros “Respondeu Davi ao sacerdote e lhe disse: Sim, como sempre, quando saio à campanha, foram-nos vedadas as mulheres, e os corpos dos homens não estão imundos. Se tal se dá em viagem comum, quanto mais serão puros hoje!” (I Samuel 21:5). Sendo pois nossos sacramentos muito mais excelentes e cotidianos, seria indecoroso e inconveniente que os administrassem homens casados. Como se fosse o mesmo ofício do ministério evangélico e o dos sacerdotes levíticos! Muito ao contrário. Os sacerdotes levíticos representavam a pessoa de Cristo, o qual, sendo mediador entre Deus e os homens, nos haveria de reconciliar com o Pai. E como eles seno pecadores, não poderiam ser perfeitamente figura de sua santidade, se lhes ordena que quando haviam de entrar no santuário se purificassem mais do que os homens costumeiramente faziam, porquanto figuravam a pessoa de Cristo e apresentavam-se diante do Tabernáculo, que era por sua vez uma figura do Tribunal Divino, como pacificadores para reconciliar o povo com Deus. Mas como os pastores atuais eclesiásticos não representam sua pessoa (Cristo), em vão são comparados com eles (sacerdotes).

            Por isto o Apóstolo, sem exceção alguma declara que o matrimônio é honroso para todos; sendo que aos fornicários e adúlteros Deus os julgará: “...porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados.” (Hebreus 10:4). E os mesmos apóstolos com seu exemplo confirmaram que o matrimônio não era indigno para ninguém por mais altos que fossem as funções desempenhadas. Porque o apóstolo Paulo testifica que não somente retiveram os apóstolos suas mulheres, sendo que ademais as levavam consigo de uma parte para outra. “E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazemos demais apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas?” (I Coríntios 9:5).

26. O celibato dos sacerdotes não existia na Igreja Antiga

            Ademais tem sido uma indescritível sem-vergonhice propor o decoro da castidade como uma coisa necessária, para afronta da Igreja Antiga, que se brilhou pela pureza da doutrina divina florescendo ainda em santidade. Porque, se às vezes fazem pouco caso dos apóstolos, como não irão fazer dos Pais antigos, estes que com toda certeza não somente permitiram o matrimônio dos bispos, como também o aprovaram? Como que eles iriam conservar uma profanação imunda das coisas sagradas, já que ao celebrar os mistérios divinos estando casados não o realizavam como deveriam segundo eles!

            É verdade que no Concílio de Nicea se tratou de proibir o matrimônio; pois nunca faltam supersticiosos desejosos de inventar algo novo para serem estimados; Ora, que se determinou? Estiveram de acordo com o parecer de Patrucio, o qual declarou que a coabitação do homem com a mulher era castidade. E assim o santo matrimônio permaneceu entre eles em sua integridade, e não foi reputado como afronta aos bispos casados nem se acreditou que com ele se manchasse de nenhum modo seu ministério.

27. A virgindade não é superior ao matrimônio

            Depois vieram outros tempos, nos quais se estimou muito e se teve em grande admiração a superstição do celibato. Daqui procedem as contínuas exaltações (elogios) a virgindade; de tal maneira, que a pessoa comum pensava que não existia virtude que se possa comparar com ela. Mesmo não considerando o matrimônio como coisa ímpia, entretanto tanto rebaixaram sua dignidade e obscureceram sua santidade, que até     parecia que não eram bastantes fortes para prosseguir a perfeição aqueles que não se abstivessem dele. Disto procedem àqueles cânones nos quis primeiramente se ordenou aos sacerdotes que não se casassem; e logo, que ninguém fosse ordenado sacerdote se não fosse solteiro ou vivesse em castidade perpétua com o consentimento de sua mulher.

            Estas coisas, porque pareciam conferir certa dignidade ao sacerdócio, confesso que antigamente foram admitidas com grande aplauso. Pois se os adversários querem objetar-me pela antiguidade, antes de tudo lhes respondo que a liberdade para que os bispos se casassem permaneceu na Igreja no tempo dos apóstolos e ainda muito tempo depois. Afirmo que os bispos, a usaram sem nenhuma dificuldade, e também os demais pastores que gozaram de grande autoridade e seguiram os apóstolos. Sustento que o exemplo da Igreja primitiva o devemos estimar com toda razão; e que não devemos pensar que é ilícito e indecoroso o que outrora se usava e era estimado.

            Afirmo também que, devido à grande estima que se tinha da virgindade não se estimava o matrimônio como deveria; não se impunha a lei do celibato aos sacerdotes como se fosse algo simplesmente necessário em si mesmo, somente porque preferia-se aos solteiros aos casados.

            Finalmente digo que o exigiram de tal maneira que obrigaram à força a guardar continência àquele que não tinha o dom da mesma. Isto se vê claramente pelos cânones antigos, que ordenaram castigos severíssimos contra os clérigos incontinentes e fornicários; e quanto aos que casavam, dispuseram somente que seguissem desempenhando suas funções.

28. Conclusão sobre o Celibato dos Sacerdotes

            Portanto, sempre que os defensores desta tirania recorram a pretexto de antiguidade para defender seu celibato devemos-lhe replicar que mostrem em seus sacerdotes a castidade que brilhava nos antigos; que suprimam os adúlteros e amancebados; que não consintam que se dêem livremente a todo gênero de luxúria aqueles a quem não permitem a união conjugal casta e honesta; que renovem aquela antiga disciplina entre eles abolida, para pôr freio a todo gênero de lascívia, que livrem a Igreja desta sujeira deformante, que há muito tempo a enfeia.

            Quando houverem entendido isto lhes advertirei também que não proclamem como necessário o que por si só é livre e depende da utilidade da Igreja. E não digo isso porque para que pensem que não se deve permitir, com alguma condição os cânones que impõe o jugo do celibato aos clérigos; e sim para que entendam os mais advertidos com que descaramento nossos adversários difamam nos sacerdotes o santo matrimônio sob o pretexto de antiguidade.

            Pois ao que refere aos Pais antigos, cujos livros têm chegado a nós, quando falavam segundo o que sentiam exceto Jerônimo4 ninguém combateu tanto a honestidade do matrimônio. Nos contentaremos com o grande elogio e louvor de Crisóstomo, que havendo sido o principal mantenedor e admirador da virgindade, não será suspeito de ter um afeto demasiado ao matrimônio. Suas palavras são: “o primeiro grau da castidade é a simples virgindade; o segundo grau, o leal matrimônio. É, pois uma espécie de segunda virgindade o casto amor do matrimônio”5.

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4 Contra Joviniano, lib. I.

5 As referências antigas registram: Crisóstomo, Homilia De Inventione   Crucis. Esta homilia, impressa na edição de Erasmo (Basiléia, 1530 t. II, pg.130) nas edições modernas é omitida.  

Fonte: Tomo II pg. 984 Institutas da Região Cristã – J. Calvino

Tradução: Helon Frazão